As lições de carreira que altos executivos dão para os filhos

Andrea Mansano, CEO da EF, e a filha Melina, que trabalha em Tóquio: apoio nas decisões

SÃO PAULO – Quatro séculos antes de Cristo, Aristóteles escreveu um livro – “Ética a Nicômaco” -, dedicado à busca da felicidade, preocupando-se em transmitir seu legado ao filho, com ensinamentos sobre amizade, gentileza, equilíbrio e honestidade. Trata-se de uma de suas obras mais admiradas, em que o filósofo grego assume a voz de pai. Assim como Aristóteles na Antiguidade clássica, pais e mães de hoje se inquietam com o futuro dos filhos – da escolha da pré-escola aos conselhos sobre carreira, relacionamentos e finanças – e com os valores que deixarão como herança às próximas gerações.

Para os presidentes de empresas, o desafio não é diferente. Donos de carreiras brilhantes e acostumados a liderar equipes, esses executivos compartilham as mesmas preocupações de outros pais quando se trata da educação dentro de casa.

“É o maior e melhor desafio da minha vida”, afirma Andrea Mansano, CEO da EF Corporate Solutions e mãe de Melina, de 26 anos, que hoje trabalha em Tóquio como executiva de comércio exterior. “Creio que acabei influenciando a carreira da minha filha. Ela ficava curiosa quando me via trabalhando em outros países, falando idiomas diferentes, e isso acabou despertando seu interesse por política internacional”, conta.

Apesar disso, Andrea não acredita que tenha direcionado a profissão da filha. “Sou de uma geração em que a educação era muito rígida. Como mãe, fui diferente: sempre deixei claro que a apoiaria em suas decisões, mas que as consequências seriam arcadas por ela. Busquei estimular o lado racional, mas sempre dando segurança e amor”, diz.

A influência da trajetória profissional dos pais sobre as escolhas dos filhos é uma realidade ainda mais marcante quando eles são executivos bem-sucedidos, afirma Sofia Esteves, fundadora do grupo Cia de Talentos, empresa de seleção e desenvolvimento de pessoas. Um dos programas da companhia é o de orientação profissional a adolescentes que estão decidindo seu futuro.

“Muitos têm um orgulho enorme da carreira dos pais, e isso passa a ser um fator de pressão interna, porque eles não querem causar decepções. Por outro lado, é comum encontrar jovens que não querem seguir os seus passos porque sentem que podem ser infelizes ou não ter tempo para a família”, explica. A experiência dos adultos com a própria carreira e as frustrações e alegrias que levam para casa depois de um dia de trabalho podem causar impressões profundas na trajetória dos filhos.

É por esse motivo que o CEO da Ânima Educação, Daniel Castanho, se preocupa em deixar um legado positivo aos três filhos, de 13, 11 e 8 anos. “Da mesma forma que saio de casa todos os dias acreditando no propósito do meu trabalho, quero que eles reflitam sobre o impacto que querem deixar no mundo. Não acredito que alguém consiga ser feliz se não for profissionalmente realizado”, diz.

Uma das estratégias usadas por Castanho para que eles encontrem o próprio caminho é expor os filhos a situações de diversidade, o que inclui viagens para lugares tradicionais e excêntricos, livros e músicas de estilos diferentes e até restaurantes com pratos exóticos. A ideia é fazer com que as crianças encontrem propósito e paixões dentro da gama de possibilidades existentes no mundo. “Em restaurantes, por exemplo, eles não comem o menu infantil. Eu digo que o problema não é não gostar da comida, mas não experimentar.”

A diversidade dos programas familiares acabou se refletindo nas escolhas profissionais das duas filhas mais velhas: enquanto uma pensa em possibilidades na área de saúde, a outra hesita entre carreiras artísticas. Não há problema se uma delas não seguir os passos do pai executivo. “Se há uma herança que quero deixar para eles é a curiosidade. Por isso, faço de tudo para que não tenham medo do desconhecido”, afirma.

Sofia Esteves afirma que, nesse processo de incentivo, é importante os pais estarem atentos a um dos grandes dilemas das novas gerações: enquanto o número de escolhas profissionais possíveis é muito alto, o nível de autoconhecimento é, em geral, baixo. “Como a maior parte dos jovens precisa fazer essas escolhas muito cedo, eles acabam se perdendo. Mesmo que o pai não queira interferir, é sua responsabilidade ajudá-los a entender seus valores e seu perfil”, diz. Nesse momento, podem entrar em jogo as habilidades de liderança desenvolvidas com a carreira executiva.

É importante salientar, porém, que o estilo de liderança que impõe ou demonstra altas expectativas sobre a trajetória profissional acaba gerando frustrações e ansiedade no jovem que precisa fazer escolhas tão cedo. “Ainda existe um número grande de pais que jogam sobre os filhos a esperança de sucesso profissional ou de seguir a mesma carreira da família. Já vi jovens em depressão porque os pais quiseram definir o que eles poderiam ou não ser”, afirma Sofia.

Tanto em casa quanto na empresa, esse estilo impositivo de liderar já não traz resultados, principalmente quando se trata das novas gerações. “Um líder precisa saber inspirar, guiar, e isso requer emoção. A única coisa que muda é a identidade do afeto, mas as competências usadas com equipes e com filhos são iguais”, afirma Irene Azevedo, diretora de transição de carreira e gestão da mudança da consultoria LHH.

Da mesma forma que um executivo se empenha para perpetuar a cultura da organização, garantindo que as pessoas que trabalham em seu time sejam comprometidas com ela, os pais devem se esforçar para serem coerentes com os valores que desejam passar aos filhos. “Assim, os pais ganham legitimidade e conseguem dar autonomia aos jovens para que eles façam as suas próprias escolhas. É preciso aconselhar, mas eles são donos de suas vidas”, diz.

Claudio Belli / ValorCarlos Guilherme Nosé, CEO da Fesa (ao centro), com os filhos Henrique e Guilherme: gosto pelo aprendizado

Carlos Guilherme Nosé, CEO da empresa de recrutamento executivo Fesa, convive com líderes de empresas em seu cotidiano, e se surpreende ao ver os dilemas que muitos enfrentam quando pensam no futuro dos filhos. “Eles se preocupam muito com suas carreiras. O que eu sempre digo é que, com a velocidade com que o mundo está mudando, é provável que as profissões de nossos filhos ainda nem existam”, afirma Nosé, que é pai de Henrique, de 13 anos, e Guilherme, de 11.

Os meninos ainda estão na fase de refletir sobre suas escolhas – por enquanto, o mais velho quer seguir carreira na música, enquanto o caçula pretende ser jogador de basquete. Entre os amigos dos meninos, porém, a grande maioria tem como meta uma profissão que assusta os adultos mais tradicionais: a de Youtuber.

“Caiu por terra o mito de que não é possível ser bem-sucedido em uma carreira alternativa. Uma profissão que não existia há dez anos, a de desenvolvedor de aplicativos, é hoje extremamente demandada”, diz. É importante, explica, que os pais tenham em mente que as competências comportamentais farão mais diferença na educação das crianças e dos jovens do que uma educação formal específica. “Hoje é importante ter gosto pelo aprendizado e pelas conquistas para que o profissional não se torne obsoleto”, diz.

Como pai, Nosé tenta estimular os filhos a buscar respostas para problemas e dúvidas do dia a dia. “Tudo o que eles me questionam, eu devolvo com outra pergunta e os estimulo a pensar e pesquisar. Até mesmo os bens materiais eu não gosto de dar de ‘mão beijada’.” “Eu sempre falo para eles: quanto mais vocês dependerem de mim, mais cedo eu vou depender de vocês”, brinca.

Segundo Sofia Esteves, esse é o melhor caminho para inspirar e guiar os filhos. “Todos os estudos que desenvolvemos sobre o perfil da nova liderança mostram que o bom líder não é o que dá respostas, mas o que sabe fazer boas perguntas para fazer o liderado pensar, ousar e correr riscos.”

Liderar e acompanhar os filhos, segundo os especialistas, é possível mesmo com uma agenda atribulada como a dos CEOs. “O tempo começa a ser um problema quando não há equilíbrio entre os papéis que desempenhamos na vida. É claro que passar horas demais no trabalho causa problemas. Mas o bom pai não é o que está o tempo todo ao lado da criança, e sim o que dá apoio para que ela possa caminhar com as próprias pernas à medida que cresce”, diz Irene Azevedo, da LHH.

Conciliar as agendas de mãe e executiva jamais foi um problema para Andrea Mansano, CEO da EF. “Decidi ter apenas uma filha e, sempre que podia, eu a levava comigo nas viagens profissionais. Nunca tive culpa em relação ao tempo que dedicava à empresa ou a ela”, diz.

Para Daniel Castanho, da Ânima, um dos maiores aprendizados sobre o tempo e a qualidade dos momentos vividos no trabalho veio de uma conversa que teve com a filha, então com 5 anos de idade. Um dia, ao sair de casa, a menina perguntou se ele estava indo trabalhar de novo. “Eu disse que sim, da mesma forma que ela também ia à escola todos os dias, e então ela respondeu que era diferente, porque a escola era para aprender”, conta. Nesse momento, o executivo passou a refletir sobre o propósito do trabalho em sua vida. Hoje, costuma dizer que também sai de casa para aprender.

Ser pai, assim como ser líder, é de fato um aprendizado de mão dupla. Para Sofia Esteves, “é preciso estar aberto e ter a humildade de entender que não se sabe tudo. Com as novas gerações, podemos aprender e construir coisas novas. O que não pode faltar é o exemplo de vida e, claro, o amor”.

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