Salmonella e fraudes em laboratórios levaram à nova fase de ação da PF

CURITIBA – A terceira fase da operação Carne Fraca, deflagrada nesta segunda-feira, parte de “um círculo vicioso de práticas criminosas” cometidas pela gigante do setor alimentício BRF, “que tem início e fim na região em que opera a planta industrial do grupo na cidade de Carambeí”, 135 km a leste de Curitiba, segundo despacho do juiz federal André Wasilewski Duszczak que autorizou o cumprimento de 91 mandados judiciais em São Paulo, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Goiás – 11 deles de prisão temporária.

“A apuração [de notícias-crime recebidas pela Polícia Federal após a deflagração da Carne Fraca, em 17 de março do ano passado], juntamente com a análise das coisas apreendidas na citada operação policial, levou a autoridade policial à conclusão de que pessoas componentes da diretoria e do corpo técnico do Grupo Empresarial BRF S/A estariam reiteradamente praticando ações articuladas com o fito de burlar a fiscalização federal sobre seu processo industrial, especificamente escondendo das autoridades sanitárias federais a contaminação de aves, destinadas ao consumo humano, por agentes patógenos, por meio de adulterações em resultados de exames laboratoriais”, anota o juiz. “As fraudes cometidas em exames laboratoriais possuem a característica de acessoriedade em relac?ão ao fim pretendido pela planta de abate: dar destino comercial a aves eventualmente acometidas por infecc?ão que ensejaria seu descarte.”

No documento, assinado no último dia 28, Duszczak elenca os três fatos que levaram a Polícia Federal (PF) a pedir os mandados judiciais. A história começa com uma granjeira associada à BRF em Carambeí. Ela relatou à PF ter recebido da BRF, em 2016, um lote de 46 mil pintos contaminados pela bactéria Salmonella pullorum.

“[A granjeira] Referiu que esse problema foi negligenciado pela BRF, inclusive quanto à notificação compulsória que é devida às autoridades sanitárias. A inércia da BRF diante da contaminação foi confirmada pelo depoimento da fiscal federal agropecuária Juliana Martins Bressan e por e-mail da Agência de Defesa Agropecuária do Paraná (Adapar). Corroboram tais suspeitas os depoimentos dos fiscais federais agropecuários Antônio Carlos Prestes Pereira e Nicole Friudlund Plugge, que constataram a contaminação em questão, quando da fiscalização da planta da empresa do grupo BRF em Carambeí”.

Segundo o despacho, a partir desse momento, passou a haver pressões para que Prestes Pereira fosse removido de seu posto. O fiscal também já determinara que a BRF substituísse embalagens de produtos com índices excessivos de água. Ele, então, procurou a PF.

Em outra frente de investigação, a PF obteve indícios de que um laboratório de Maringá (436 km a noroeste de Curitiba) chamado Merieux Nutrisciences, embora descredenciado para tanto, estaria realizando análises solicitadas a outra empresa, chamada Allabor – ambos pertencem ao grupo Bioagri Laboratórios. A gerente do Bioagri, segundo a PF, também representa outra empresa, chamada Laboratórios São Camilo de Análises de Alimentos e Água.

A São Camilo, por sua vez, é mencionada por Roney Nogueira dos Santos, funcionário da BRF levado coercitivamente a depor nesta segunda-feira, em conversa telefônica interceptada pela polícia com autorização da Justiça. Nela, Santos diz a um interlocutor que a BRF tem interesse em credenciar o laboratório no Ministério da Agricultura, Abastecimento e Pecuária (Mapa).

Analisando e-mails de funcionários da BRF, a PF identificou possíveis irregularidades num laboratório da empresa em Rio Verde (GO). Em uma ação trabalhista movida contra o grupo, uma ex-supervisora afirma ter sido “pressionada por superiores para alterar resultados de análises laboratoriais, inclusive da planta industrial de Mineiros (GO), e simular a rastreabilidade de amostras”, narra o juiz Duszczak. “[Tais] fatos que foram levados ao conhecimento da cúpula da empresa, nomeadamente para André Luís Baldissera (que teve prisão temporária determinada nesta segunda-feira) e José Roberto Pernomian Rodrigues (levado coercitivamente a depor)”.

Há, ainda, segundo o juiz, um “quarto conjunto de fatos ilícitos: a prática corriqueira da empresa BRF em adulterar a rastreabilidade do composto Premix, utilizado como complemento vitamínico e mineral às rações fabricadas pela empresa, seja por inserir componentes não permitidos, seja por alterar as porcentagens dos componentes indicadas nas etiquetas”, que foi descoberta pela análise de e-mails aos quais se chegou na operação Carne Fraca.

A PF e o Ministério Público Federal darão detalhes sobre a terceira fase da Carne Fraca em entrevista coletiva nesta manhça em Curitiba. O Valor apurou que representantes do Ministério da Agricultura também estarão presentes. O objetivo é tentar evitar alarmismo quanto a problemas de saúde pública, como ocorreu em março passado, após a primeira fase da operação.

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