Para resolver seus problemas, não fale sobre eles

SÃO PAULO – Angústia, ansiedade, inquietação, solidão e paralisia são algumas das sensações presentes quando estamos com problemas — e que tenho observado quando converso com CEOs e líderes de empresas ultimamente.

Isso é até natural quando problemas não faltam no Brasil e no mundo corporativo. Eles vão desde crescer cortando custos, enfrentar concorrência disruptiva até conviver com uma carga tributária complexa e alta.

Começar uma sessão com um cliente perguntando qual os problemas que tiram o seu sono era quase uma senha para uma avalanche de desabafos e frustrações misturados com temas espinhosos, que quem lidera hoje no mundo corporativo enfrenta. Uma salada de frutas azeda e indigesta.

Motivos para que os problemas ocupem um grande espaço da nossa agenda não faltam. Entender, digerir, e resolver problemas consome uma energia enorme. Muitos dizem que faz parte do pacote de executivo. Eu digo: faz parte do bônus! Afinal, se não for para resolver problemas, para que a empresa precisa de você?

Como coach , meu desafio é ajudar na solução desses problemas, diluindo os sentimentos ruins que vem junto deles e aumentando a performance de quem trabalha comigo. Foi buscando ser mais efetivo na superação desse desafio que encontrei uma nova abordagem para lidar com problemas, que tem auxiliado meu trabalho e o dos meus clientes.

Falo da “appreciative inquiry” ou, traduzindo, uma “conversa apreciativa”. Esse conceito e seus fundamentos foram desenvolvidos por David Cooperrider, da Cape Western Reserve University, nos Estados Unidos no final da década de 1980.

A abordagem, que pode ser aplicada tanto em empresas como em pessoas, é bem diferente dos métodos tradicionais. Em vez de se concentrar no que está ruim, nos problemas, e tentar achar as soluções para eles, o foco é justamente o oposto. A ideia é identificar, valorizar e iluminar o que realmente está bom e funciona, construindo em cima disso, e deixando as discussões intermináveis sobre problemas de lado.

Assim, muitas vezes é possível criar novos caminhos, tornando os problemas irrelevantes ou fazendo um trabalho para ressignificá-los.

Tenho usado a abordagem da “appreciative inquiry” em meus processos de coaching. Na prática, procuro com meus clientes seguir quatro grandes etapas, sempre com essa provocação positiva.

1) Descoberta: quando por meio de perguntas identificamos e valorizamos o que está dando certo. É o momento de listar tudo que está indo bem na empresa, o que tem funcionado, aquilo do que se pode orgulhar. Percebo que, muitas vezes, a lista não sai rapidamente, pois temos a cabeça tão ajustada a pensar no que não está bom que esquecemos e até nos surpreendemos ao ver quanta coisa fazemos bem. Perguntar-se o que está dando certo agora é um bom começo para destravar essa lista. Isso traz uma nova consciência, energia e astral, bem apropriados para a etapa seguinte.

2) Visualização: Com a energia gerada na etapa 1 procuramos construir cenários de muito sucesso para uma determinada situação. Descrevendo esses cenários em detalhes, aumentamos o desejo e a expectativa de torná-los possíveis.

3) Design: nesse momento construímos planos que possam viabilizar cenários de sucesso criados na etapa anterior. Provocações como o que precisa ser feito para que resultados desejados aconteçam são comuns nessa etapa. Técnicas como o design thinking ajudam, mas é a experimentação real dos caminhos que mais importa. É na prática que uma alternativa se torna viável. Muitas vezes um caminho inicial muda totalmente de direção quando começamos a praticá-lo.

4) Destino: na etapa final desse ciclo virtuoso, os caminhos praticados e validados se transformam em ações concretas, com metas específicas e instrumentos de controle do progresso. Também é importante inserir nesse cronograma momentos de celebração, que geram a energia necessária para superar as barreiras e ir em frente, na direção do que se propôs a realizar.

A abordagem de não falar dos problemas não significa de maneira nenhuma abandoná-los ou jogá-los debaixo do tapete. Muito pelo contrário. A energia positiva gerada pela consciência e a apreciação do que está dando certo é canalizada em ressignificar os problemas originais, transformando os em mistério, aventura e desafios.

Se conseguirmos tratá-los assim, existem boas chances que curiosidade, criatividade e proatividade apareçam, iluminando alternativas mais interessantes e lucrativas e eclipsando aqueles sentimentos de dúvida, impotência e baixa autoestima que aparecem quando só falamos dos problemas.

Testar essa abordagem da conversa apreciativa pode ser interessante, principalmente, porque reclamar dos problemas não ajuda em nada para resolvê-los. Pelo contrário, só aumenta os sentimentos desconfortáveis que os acompanham.

Sergio Chaia é coach de CEOs e de treinadores de atletas de alto rendimento, atua em conselhos de empresas e faz mentoria para empreendedores.

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