A visão do passado é sempre muito mais romântica do que a realidade

Tire uns minutos para pensar no histórico do time de futebol para o qual você torce. Ao fazer esse breve levantamento mental, você certamente se lembrou de algum momento incrível, como a conquista de um título importante. Além da lembrança gostosa da comemoração, também deve ter resgatado na memória alguns lances bonitos e deve ter suposto que a campanha do seu time beirou o impecável. No entanto, se for conferir as estatísticas ao pé da letra, certamente terá exagerado um pouco em sua avaliação sobre a equipe.

Isso não é exclusividade do comportamento de torcedores apaixonados. De fato, tendemos a recordar do passado de uma forma um tanto quanto distorcida. O jornalista Joseph T. Hallinan, ganhador do prêmio Pulitzer e autor do livro “Why we make mistakes” cita um estudo feito com jovens recém ingressados em faculdades. A tarefa dada a eles era recordar de suas notas escolares no ensino médio.

Depois de dadas as respostas, elas eram confrontadas com o real histórico escolar. No geral, 29% das notas lembradas estavam erradas. Além disso, essa margem de erro não foi neutra: eles tendiam a responder com mais exatidão em relação às boas notas. A taxa de exatidão para as notas A foi de 89%, enquanto para notas D esse percentual baixou para 29%. Ou seja, a memória tende a ficar mais nebulosa quando se trata de nossos calcanhares de Aquiles.

Apliquemos isso à nossa vida financeira: se você investe em renda variável, por exemplo, é provável que terá uma lembrança mais nítida dos seus ganhos mais expressivos do que das baixas significativas que teve enquanto seu dinheiro esteve aplicado. De certa forma, isso influencia a maneira como você toma decisões: acaba se enxergando como um investidor muito mais assertivo do que realmente é.

O mesmo vale para a forma como recapitulamos nosso histórico de crédito. É comum, por exemplo, que pessoas que tiveram problemas com dívidas altas, depois de quitá-las, acabem fazendo novos compromissos financeiros substanciais, apesar das experiências passadas. A euforia diante de uma situação presente, como o financiamento de um carro zero, por exemplo, faz com que a memória negligencie os momentos de sufoco do passado.

Essa distorção na forma de observar o passado também vale para empreendedores. Empresários que tenham lucrado bastante em determinado período, comumente dizem que já previam oportunidades de mercado depois que elas aconteceram – ainda que eles tenham dado a sorte de aproveitar algo completamente inesperado que tenha feito a demanda por seus produtos subir. Em contrapartida, se eles sofrem prejuízos substanciais ou vão à falência, acreditam que não poderiam prever o resultado ou culpam fatores externos.

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